Indústria 4.0 e IIoT - Mitos e Fatos



Certa vez fui à uma palestra, no Congresso da ABEPRO, do meu grande amigo, meu orientador de mestrado e Professor Dalvio Tubino. A palestra era sobre previsões falsas sobre a manufatura. Concordando ou não com que o Prof. Tubino dizia, e há pouco para divergir, mas não foi propriamente o tema proposto que me chamou a atenção. O que estava presente em cada questionamento, após a palestra, era a fascinação dos alunos e professores pelo tema Indústria 4.0. Esse sentimento na verdade aparecia como uma mistura de assombro, temor e ilusões imediatas sobre o assunto.


a) De onde vem o termo Industria 4.0 e o que significa

Primeiramente o nome Indústria 4.0 é na verdade uma marca de um consórcio. Assim como JIT, Lean Manufacturing, parece que temos um novo buzzword que todos correrão atrás. O que me chama a atenção aqui é a força de um termo forjado na Alemanha, por algumas empresas e principalmente por uma coordenação do governo alemão. Por si só, o envolvimento de governos e grandes empresas, em conjunto, já me desagrada pela forma artificial com que surgem e são conduzidas. Normalmente essas iniciativas entram em uma difusa rede de interesses chamada de política industrial, sempre a luz do fato que a Alemanha é a maior exportadora de bens de capitais. Observe como ela é descrita:

"Industrie 4.0 was one of the future projects adopted in the „Action Plan High-tech strategy 2020” by the German Federal Government in 2010. This encouraged the business associations BITKOM, VDMA and ZVEI to establish the Plattform Industrie 4.0 in 2013. In 2015, the Plattform Industrie 4.0 was expanded with support of the Ministry for Economic Affairs and Energy and the Ministry of Education and Research. More actors from the private sector, business associations, unions, research organisations and political institutions joined"

Além disso, o próprio nome sugere uma ruptura que na verdade não existirá na prática. Para deixar claro, listo abaixo a definição presente no próprio site da Industrie 4.0

"Industrie 4.0 combines production methods with state-of-the-art information and communication technology. The driving force behind this development is the rapidly increasing digitisation of the economy and society. It is changing the future of manufacturing and work in Germany: In the tradition of the steam engine, the production line, electronics and IT, smart factories are now determining the fourth industrial revolution."

Mas o que é Smart Factory? Vamos a mais um definição, que julgo ainda muito imprecisa: "The term describes an environment where machinery and equipment are able to improve processes through automation and self-optimization. The benefits also extend beyond just the physical production of goods and into functions like planning, supply chain logistics, and even product development. Yet, the core value of the smart factory still happens within the four walls of the plant. The structure of a smart factory can include a combination of production, information, and communication technologies, with the potential for integration across the entire manufacturing supply chain."

Estão falando de robôs, sensores, controle adaptativo, produção 100% automática, inteligência artificial. Enfim cabe tudo. Isso já existe? Somente em partes, diria. Se não é concreto, fechado e preciso, só pode estar falando de mudança gradual, pois nem mesmo quem escreveu essa frase sabe exatamente para onde estamos indo.


Se pegarmos o vídeo da Smart Factory da Audi abaixo, por exemplo, o que podemos ver é que a profissão de motorista de empilhadeira é a mais criticamente afetada.



b) Internet das coisas

O segundo ponto é que ninguém no mundo acadêmico parece conhecer a iniciativa norte americana, mais precisamente IIoT (Industrial Internet of Things). Esse termo, me parece que poderia ser absorvido muito mais precisamente e com certeza com muito menos temor do que o termo alemão. Afinal ninguém teria medo da internet das coisas para indústria. Digo que é muito mais preciso porque explicita muito melhor o desafio e as oportunidades atualmente presentes, i.e., adicionar a equipamentos, produtos e peças, dispositivos com sensores, armazenando seus dados para posteriormente analisar os dados coletados e armazenados em Nuvem ou Cloud . Isso é possível pelo um custo cada vez menor, tanto dos sensores, como da própria Nuvem. Aliás, sobre esse tema, temos aqui no Brasil, mais especificamente em Joinville uma associação que trata de uma forma mais natural e como muito menos marketing o tema. É a ABII (Associação Brasileira de Internet Industrial), orgulhosamente presidida pelo nosso empresário catarinense J. Rizzo Filho.

c) Automação industrial

Talvez o mais importante, o termo Smart Factory, Indústria 4.0 parece conduzir a um único caminho. A automação do ambiente fabril, eliminando quase que todos os empregos na indústria. Muitos falaram em fábricas escuras, ou seja hostil aos humanos. E é nesse ponto que me parece que o termo alemão mostra sua imprecisão. Afinal se estamos falando de sensores, dados, alarmes, controle remoto, análise e decisões locais, não estamos necessariamente falando em perda de emprego, mas muito provavelmente do inverso. Se uma fábrica será 100% automatizada, eu diria que provavelmente, mas não a curto prazo. Contudo ninguém pode ainda prever como será. Enfim, o caminho natural é na verdade o da criação de empregos em empresas que consigam trabalhar essas informações.

Apenas para dar um exemplo do que eu estou falando: imaginem uma empresa que injeta peças plásticas. A colocação de sensores com o armazenamento de dados em Nuvem poderá ajudar as empresas a entender quando o equipamento irá falhar ou em que situação o processo estará a trabalhar melhor, por exemplo em relação a temperatura do molde ou a pressão na bomba. Veja, é um exemplo simples que melhora a produtividade e não desemprega ninguém. Pelo contrário, possibilitou alguém a trabalhar esses dados e ainda reduziu custos e poluição ambiental.

d) Mudanças disruptivas

Ainda, muitos falavam de ruptura imediata com o status quo (disruptivo): o sentimento é que precisa mudar tudo que está aí, pois tudo está errado. Será que não seria muito mais preciso dizer que é um processo evolutivo de automação, digitização, captura e análise de informação que ocorrerá acompanhando as evoluções clássicas, sem prejudicar as iniciativas de implantação de Manufatura Enxuta, Kaizen, TOC, etc? Muito provavelmente, eu diria. Aqui cabe só mais um consideração. Se começamos a transição para a quarta revolução e a anterior iniciou no início da década de 70, quantos anos vai durar essa transição?

Observe que lean manufacturing está diretamente relacionada a terceira revolução e ainda não paramos de ouvir empresas investindo nessas técnicas. Então nenhuma transição é tão curta. A primeira durou cerca de 50 anos (1780-1830) e a segunda começou por volta de 1870 e Ford somente implantou suas linhas de montagem por volta de 1920. Então qual é a razão dessa revolução parecer que vai ser tão imediata. Fica a questão!

e) Engenharia e computação

E o último e não menos importante, a separação das cadeiras de engenharia e computação talvez explique, mas há o desconhecimento do que realmente a infraestrutura dos sistemas Cloud, como Microsoft Azure, Amazon AWS e Google Clouds oferecem. Talvez entendendo o que a Nuvem, faz principalmente falando de infraestrutura e ferramentas como Analytics, IoT, AI, Hub Notifications e Data Lake, fica muito mais simples compreender o que podemos melhorar de imediato e para onde devemos caminhar. Isso deixaria, com certeza, o interlocutor muito menos inseguro, e com a possibilidade de abandonar o campo da suspeição e alcançar o das oportunidades. De qualquer forma, os dois grupos(IIoT e Industrie 4.0) já perceberam que há a necessidade de alinhar seus posicionamentos. Antes que os mesmos se separassem sem um ponto de retorno, eles trataram de firmar um acordo. Nesse, a Industrie 4.0 será um subconjunto do esforço da Industrial Internet Consortium voltado especificamente para a manufatura. Contudo, não devemos esperar ali uma declaração de morte aos emprego de trabalhadores da indústria (veja o link)


Enfim, quero deixar registrado meu sentimento que temos, no presente, uma grande oportunidade para a indústria e para os profissionais não só das engenharias e da computação. Podemos intuir que outras disciplinas também possam se beneficiar. Penso que até mesmo médicos, psicólogos, físicos, matemáticos, químicos poderão aproveitar os dados captados para analisar e propor serviços úteis a indústria. Digo isso, pois todos podem explorar de imediato as oportunidades que estão surgindo, independente da aplicação tradicional de suas disciplinas. Aliás diria que vivemos um momento auspicioso onde com o advento das startups. Hoje qualquer empresa, de qualquer porte, consegue se especializar e oferecer uma oferta específica e única. Isso, com a vantagem de não ser mais importante a localização da mesma. Pode ser nos EUA, em Israel, Europa ou mesmo no Brasil, Não importa. Portanto o tempo é de oportunidade e não de temor. Boa sorte a todos que se aventurarem nesse desafio e esperamos ter muitos brasileiros trabalhando conosco.

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